Dando brilho à verdade/ Sem usar qualquer verniz/ Lembro de uma tempestade/ Destroçando este país.
Quem teve farda e maldade/ Fez nela tudo o que quis/ Com minha dignidade/ Eu protestei e não fiz.
Choveu chumbo sobre a terra/ Burros fugindo a galope/ Imaginaram ser guerra/ Quando era um simples golpe/ Um golpe na sociedade/ Ferindo a democracia/ Sepultando a liberdade.
Isto em plena luz do dia/ Cinquenta anos correram/ E de medo não corri/ Quantos lutaram e morreram/ Pela vida que vivi?/ Quantos foram aprisionados?/ Quantos? Quantos? Eu não sei./
Quantos foram torturados/ Pelos sonhos que sonhei?
Quanta gente boa e pura/ Que tanto o Brasil amou/ Mastigou na ditadura/ O pão que o diabo amassou?/
Quantos famintos ficaram/ Até hoje sem comer?/ Quantos viram e se calaram/ Tendo muito o que fazer.
Cinquenta anos passaram/ E continuo sonhando/ Meus sonhos não acabaram/ Eu é que estou acabando/
Mas na casa dos oitenta/ Vendo a velhice chegar/ Cinquenta anos, cinquenta/ Ainda quero sonhar.
Cinco décadas rolaram/ Pelo chão dos meus caminhos/
No qual as flores murcharam/ Sem que murchassem os espinhos/ E eu prossigo sonhando/ Com a justiça social/ Sonharei me acabando/ Até o minuto final.
O sonho, o sonho somente// pode o homem engrandecer./O sonho planta a semente/ Que faz o futuro nascer/ Quem sonhou com o comunismo/ Vivo ou morto honra seu povo/
Quem sonha o socialismo/
Não é velho, é sempre novo./
Oitenta anos eu tenho/ E me sinto uma criança/
O meu retrato desenho/ Com a tinta da esperança./
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Apoiando a greve Banpará 2013 |
E ponho esta frase eloquente/ No alto da sua moldura:/
Nada existe tão indecente.
Quanto uma ditadura!!/ Cinquenta anos, cinquenta/ "Ah! Como a vida é ligeira!"/ Já não chove, o sol esquenta/ Folhas da minha mangueira./ Sou criança, não cresci/ Na minha Belém do Pará/ Porque sonhei, mereci/ Ser índio Tupinambá/
Estou nu e grito forte/ Meu sonho é minha coragem./Nasci caboclo do norte/ No tempo da Cabanagem/Digo o que penso e dizendo/ Voo como gavião/ Faço o que quero e fazendo/Todo pobre é meu irmão.
(Poema de autoria do poeta, escritor, dramaturgo e preso político da ditadura militar
Nazareno Tourinho. Um amigo querido que tive a honra de trabalhar ao lado, no Banpará, em 1987, quando ele fundou a Afbepa - Associação dos Funcionários do Banpará. O nome do poema é "Cinquenta anos de sonho depois de um pesadelo").
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André Nunes e Nazareno Tourinho |
Emoção a gente vive, sente, não contabiliza. Mesmo assim, três momentos me calaram na alma e arrupiaram meus cabelos todos hoje pela manhã, durante a instalação da Comissão da Verdade, Memória e Justiça dos Trabalhadores, ato realizado por todas as centrais sindicais, OAB.Pa e Dieese.Pa na sede da OAB. Um desses três momentos, foi ver e ouvir a voz forte do amigo Nazareno Tourinho invadindo o plenário da OAB ao declamar esse belo poema escrito aí em cima.
Marcado com maçarico -Outro instante que vai ficar grudado na memória da minha pele, foi ouvir o companheiro Moacir Martins, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil falando que no período trevoso da ditadura militar, o então dirigente sindical Raimundo Gomes teve as iniciais de seu nome marcados na barriga com um maçarico.
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CUT e todas as centrais sindicais, Neto (Comissão da Verdade Nacional), Dieese e OAB. |
E as famílias? - E o ex-bancário do Banco da Amazônia, André Nunes foi o responsável pelo terceiro instante tocante. Com simplicidade e leveza ele falou de uma grande dor. A dor das famílias que no período da ditadura, tinham seus maridos e esposas demitidos assim sem que nem pra que. Justa causa sem saber a razão. Sem emprego, sem sustento, sem dignidade. E tudo pela ideologia de ser comunista. Ter o amor como guia. Como disse André Nunes, emocionando minha alma e de quem o ouvia: não dá pra ser comunista sem ser romântico, sem amor e sem amar a humanidade. E pediu que se conte o golpe às novas gerações de forma didática. E que a Comissão requeira uma reparação à dor das famílias.
Mais sobre o assunto
aqui.
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Roberto Sena(Dieese.Pa) e Paulo Roberto Ferreira: organizando o ato. |
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Coleta de assinaturas para Lei da Mídia Democrática. |
A velha mídia sustentando o golpe militar
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A velha mídia: grande sustentáculo do golpe de 1964. |
Vídeo mostra a velha mídia como viga-mestra do golpe