No visor do celular, o chamado. Vinha da ContrafCUT, de São Paulo.Atendi. Era a telefonista. Vera? Tem uma pessoa aqui na Contraf que quer falar com você. Era um ex-bancário do BASA chamado Paulo. Aliás, de uma terceirizada do BASA, área de informática. Quando foi demitido, pegou a graninha da rescisão, comprou uma passagem de ônibus e se mandou para São Paulo, em busca de um emprego.
O emprego não pintou, o dinheiro acabou e ele virou morador de rua, catador de restos há mais de mês. Queria voltar pra Belém e queria uma passagem. Longe de casa mais de 3 mil e 500 quilômetros.
Me contou como chegou na Contraf. Estava andando quando enxergou a sede da Contraf. Lembrou das greves e daquele símbolo, daquela marca. Lembrou do carro de som na porta do BASA e dos dirigentes falando sem parar, berrando no microfone. Já tinha visto aquela marca.
Não contou conversa. Entrou, contou a história de seu insucesso e pediu pra falar com o atual presidente do Sindicato dos Bancários do Pará. Não conseguiu, então pediu pra ligarem pra mim. Lembrava de mim na porta do BASA, do tempo em que presidi o Sindicaro.
Ouvi a história dele angustiada. Peguei o endereço da família em Icoaraci-Belém. Sem telefone fixo, sem celular. Longe. Mais longe estava ele.
Liguei pra Cut Nacional e pedi a ele que fosse até lá. Na Contraf, alguém arranjou um vale para o metrô e lá se foi ele.
De tarde, de novo o celular mostrava chamado da Contrafcut. Era o rapaz. Conseguira uma passagem de ônibus para voltar a Belém. Para daqui a dois dias. Queria 50 reais para passar os 2 dias e também para encarar os 3 dias da volta pra casa. Uma conversa rápida com Daise e 100 contos foram colocados na mão dele.
Hoje é terça, ele sai de Sampa na quinta, chega em Belém domingo. Nenhum tostão no bolso, muita história doída pra contar.
E dessa história eu guardo uma convicção: vale a pena lutar pro mundo ser um pouco melhor, a partir de pequenas ações que podem salvar vidas. E isso é possível no sindicalismo de esquerda, com homens e mulheres de boa vontade. Ganhei o dia e acredito que assim se sentiram as companheiras e companheiros da CUT e ContrafCUT que ajudaram um companheiro a retornar pra casa.
Paulo volta a Belém com o sonho do emprego esfarelado. Mas conseguir voltar é o maior sonho do ex-bancário. Pra ele, encharcado de desesperança, brilha o dito popular: "Quem vai pra casa não se molha".
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| Com arte e doçura, Marta encara a crise, de mesa em mesa noas bares de Brasília. Levei o ladrilho pra minha casa, em Belém. |
A conversa rolava solta e variada. De vôos aéreos, a fundos de pensão, quiropraxia, comidas vegetariana e unibiótica, sindicalismo, a crise e o Brasil, piadas prontas ou criadas. Mesa de bar com gente legal é sempre assim, gostosa nenhuma conversa termina e no meio de cada uma, um riso, uma brincadeira, um sarro de alguém. Mesa no ponto pro relaxamento depois de um dia de tensões, reuniões.
Bem cara de Brasília isso de reunião e tensões. Local bom pra aliviar Mercado Municipal, irmão mais novo e bem menor do Mercado paulista, igualmente com direito a sandubas gigantes de mortadela, bacalhau e chope na pressão. Na roda de conversa e carinho, eu, meu amigo-irmão Castagna Maia, a presidenta do Sindicato dos Aeronautas, Graziella e a presidenta da Associação dos Quiropraxistas, que tentava, via escritório de advocacia do amigo, regulamentar a profissão e espanar os vendilhões desse templo.
Marta chegou quieta, linda e negra com sua barriga de quase 6 meses de gravidez. Uma menina, ela espera dessa vez. Com 25 anos, já tem dois meninos e que ta na barriga também veio assim, sem planejamento, mas ela tá feliz. Sustenta a família com a ponta dos dedos, fazendo arte em ladrilho, com tinta a óleo. Todas as noites, nos bares e em mesas receptivas.
Carrega os ladrilhos e os potinhos de tinta. Pergunta se aceitamos ver a arte dela. Topamos.
Com a ponta dos dedos, Marta pinta rapidamente um ladrilho. Faz uma paisagem de árvores, sombra no rio, sol, colorido. Pinta em pé e vai respondendo a um caminhão de perguntas. Ganha em média 2.500,00 reais trabalhando todas as noites. Mais do que bancário, lembra nosso advogado. Quando a menina nascer, vai ter uns dias de resguardo e depois volta ao trampo. Marta gosta do que faz, de mesa em mesa, em bares já conhecidos e onde tem tränsito. Cada ladrilho pintado custa 20 contos e demora 3 dias pra secar.
Ela assina orgulhosa o nome na tinta fresca. Marta. Linda e grávida, batalhadora, nem aí pra crise.
A crise, indago... Ela ri e continua pintando.
Por enquanto, tá dando pra resolver com as pontas dos dedos.
Dandan é meu menino de 6 anos, quase 7. Sobrinho, afilhado, meio filho, meio neto, meio muita coisa querida.
Dandan é uma centelha de luz, passeando no meio da gente, olhinhos brilhndo sempre, irradiando vida.
Tanta vida se derramando, ia acabar triscando em alguém.
Na nova escola, em Belém, Dandan conheceu o amor, um amor diferente daquele pela mãe, pai, avó,tias, Bia, Caio, os irmãos. Dandan se apaixonou.
Cheio de atitude, o amor foi logo guiando ele pra fazer um cartão lindo pra amada. Cartão cheio de corações, colas de várias cores, coisa gigantona, do tamanho do amor de Dandan pela sua menina.
Enrolado na timidez, criou coragem e entregou o cartão. A menina, ah! meninas, apenas olhou, riu e deu um beijo na bochecha dele.
O beijo grudou e ele, estátua, parado na frente dela até que bateu a campa. Hora de voltar pra casa, pisando nas nuvens, beijo guardado na bochecha e no coração.
Antes do jantar, recusou o banho. Teve o primeiro receio de amor: que a água levasse o calor do beijo que tava entranhado na pele, na vida dele.
Naquela noite, riu muito e dormiu mais leve do que nunca. Estava amando. E com beijo!
Dandan é uma centelha de luz, passeando no meio da gente, olhinhos brilhndo sempre, irradiando vida.
Tanta vida se derramando, ia acabar triscando em alguém.
Na nova escola, em Belém, Dandan conheceu o amor, um amor diferente daquele pela mãe, pai, avó,tias, Bia, Caio, os irmãos. Dandan se apaixonou.
Cheio de atitude, o amor foi logo guiando ele pra fazer um cartão lindo pra amada. Cartão cheio de corações, colas de várias cores, coisa gigantona, do tamanho do amor de Dandan pela sua menina.
Enrolado na timidez, criou coragem e entregou o cartão. A menina, ah! meninas, apenas olhou, riu e deu um beijo na bochecha dele.
O beijo grudou e ele, estátua, parado na frente dela até que bateu a campa. Hora de voltar pra casa, pisando nas nuvens, beijo guardado na bochecha e no coração.
Antes do jantar, recusou o banho. Teve o primeiro receio de amor: que a água levasse o calor do beijo que tava entranhado na pele, na vida dele.
Naquela noite, riu muito e dormiu mais leve do que nunca. Estava amando. E com beijo!
terça-feira, 27 de março de 2007
Banpará,
movimentos sociais,
não toque em meu companheiro
16
comentários
NÃO TOQUE EM MEU COMPANHEIRO
Não sei se é pelos primórdios do petismo, mas como eu gosto da palavra companheiro.
Companheiro, aquele que compartilha o pão,
que passa o sufoco junto,
que ajuda a construir pontes,
que é silêncio e colchão de carinho quando o mundo fica de ponta cabeça,
que chora quando a gente está triste e gargalha quando obtemos uma vitória que pode até ser gita, mas que o ali junto logo eleva à condição de gigante.
O que compartilha as dores e os amores.
Tenho companheiros e companheiras assim e em muitas arquibancadas, mesmo naquelas em que não posso agitar minhas bandeiras. Não são muitos, mas parece uma legião, tamanha é a força, unidade, carinho e atitude quando compartilham comigo o pão.
O pão da vez é a ditadura que se instalou na empresa em que trabalho e que acabou me atingindo em cheio dia 23 de março de 2007, por injunções da política mais rasteira. Assim, sem que nem por quê. Até porque ditadura por ser golpe, não se dá ao trabalho de dar explicação. Apenas executa, com o tom sombrio da arbitrariedade. Sou descomissionada de uma função que conquistei com décadas de trabalho e por movimentos das trevas, das sombras e sem me dar a menor chance de defesa e isso após eu ter enfrentado um 2006 de travessia do Rubicão na minha saúde. Égua!
A força da solidariedade -A dor que enfrento hoje e a força da solidariedade me faz recordar um episódio da época do governo Collor, em 1991.
Em 27 de setembro de 1991, no período do governo Collor, a Caixa Econômica Federal demitiu 110 colegas que fizeram 21 dias de uma grande greve. A ordem da demissão coletiva partiu do então presidente da Caixa, Álvaro Mendonça.
Diante do brutal ataque ao emprego e à vida de 110 colegas e suas famílias, a Fenae - Federação nacional das associações do Pessoal da Caixa, Apcefs e sindicatos fizeram um cordão solidário contra o ato antissindical e desumano, na minha opinião uma das mais belas campanhas do movimento sindical bancário e que expressou a solidariedade numa tocante campanha que dizia "Não toque em meu companheiro!". O companheiro era simbolizado por uma flor despedaçada no caule e que mão cuidadosa protegia para amparar e manter em pé a flor já brutalmente agredida. Não tenho mais essa imagem, mas vou buscá-la junto à Fenae e quando tiver, publico aqui.
Os 110 colegas foram reintegrados em 4 de outubro de 1992 (Collor fora impichimado em 29 de setembro de 1992) e no longo ano em que ficaram sem salários, tiveram o sustento assegurado pela solidariedade de 35 mil bancários da Caixa que depositavam todo dia 20 de cada mês 0,3% de seus salário num fundo solidário que manteve o longo inverno de 1 ano sem salário. O companheiro Jair Pedro Ferreira foi um desses 110 colegas.
Após a reintegração, os 110 bancários tiveram os 21 dias da greve de 1991 descontados em 5 parcelas, mas isso ficou pequeno diante da imensa e maravilhosa vitória de criar e manter solidariedade e esperança na luta e nos companheiros.
A imagem, o símbolo daquela mão que acolheu com ternura e firmeza a flor cortada e com todo cuidado impediu que se despedaçasse, ficou gravada na memória da minha pele. Para sempre.
Então, quando leio, vejo, passo ou pressinto injustiças, me vem à mente aquela flor cortada, mas acolhida pela generosidade. A mesma que me sustenta neste difícil, doído momento em que, mais uma vez, ajudada por companheiros estou pulando uma grande, imensa fogueira.
Um dia conto com detalhes esta fogueira e as trevas que a precederam.
Companheiro, aquele que compartilha o pão,
que passa o sufoco junto,
que ajuda a construir pontes,
que é silêncio e colchão de carinho quando o mundo fica de ponta cabeça,
que chora quando a gente está triste e gargalha quando obtemos uma vitória que pode até ser gita, mas que o ali junto logo eleva à condição de gigante.
O que compartilha as dores e os amores.
Tenho companheiros e companheiras assim e em muitas arquibancadas, mesmo naquelas em que não posso agitar minhas bandeiras. Não são muitos, mas parece uma legião, tamanha é a força, unidade, carinho e atitude quando compartilham comigo o pão.
O pão da vez é a ditadura que se instalou na empresa em que trabalho e que acabou me atingindo em cheio dia 23 de março de 2007, por injunções da política mais rasteira. Assim, sem que nem por quê. Até porque ditadura por ser golpe, não se dá ao trabalho de dar explicação. Apenas executa, com o tom sombrio da arbitrariedade. Sou descomissionada de uma função que conquistei com décadas de trabalho e por movimentos das trevas, das sombras e sem me dar a menor chance de defesa e isso após eu ter enfrentado um 2006 de travessia do Rubicão na minha saúde. Égua!
A força da solidariedade -A dor que enfrento hoje e a força da solidariedade me faz recordar um episódio da época do governo Collor, em 1991.
Em 27 de setembro de 1991, no período do governo Collor, a Caixa Econômica Federal demitiu 110 colegas que fizeram 21 dias de uma grande greve. A ordem da demissão coletiva partiu do então presidente da Caixa, Álvaro Mendonça.
Diante do brutal ataque ao emprego e à vida de 110 colegas e suas famílias, a Fenae - Federação nacional das associações do Pessoal da Caixa, Apcefs e sindicatos fizeram um cordão solidário contra o ato antissindical e desumano, na minha opinião uma das mais belas campanhas do movimento sindical bancário e que expressou a solidariedade numa tocante campanha que dizia "Não toque em meu companheiro!". O companheiro era simbolizado por uma flor despedaçada no caule e que mão cuidadosa protegia para amparar e manter em pé a flor já brutalmente agredida. Não tenho mais essa imagem, mas vou buscá-la junto à Fenae e quando tiver, publico aqui.
Os 110 colegas foram reintegrados em 4 de outubro de 1992 (Collor fora impichimado em 29 de setembro de 1992) e no longo ano em que ficaram sem salários, tiveram o sustento assegurado pela solidariedade de 35 mil bancários da Caixa que depositavam todo dia 20 de cada mês 0,3% de seus salário num fundo solidário que manteve o longo inverno de 1 ano sem salário. O companheiro Jair Pedro Ferreira foi um desses 110 colegas.
Após a reintegração, os 110 bancários tiveram os 21 dias da greve de 1991 descontados em 5 parcelas, mas isso ficou pequeno diante da imensa e maravilhosa vitória de criar e manter solidariedade e esperança na luta e nos companheiros.
A imagem, o símbolo daquela mão que acolheu com ternura e firmeza a flor cortada e com todo cuidado impediu que se despedaçasse, ficou gravada na memória da minha pele. Para sempre.
Então, quando leio, vejo, passo ou pressinto injustiças, me vem à mente aquela flor cortada, mas acolhida pela generosidade. A mesma que me sustenta neste difícil, doído momento em que, mais uma vez, ajudada por companheiros estou pulando uma grande, imensa fogueira.
Um dia conto com detalhes esta fogueira e as trevas que a precederam.
O segundo dia de fevereiro acordou assim com uma manhãzinha manhosa, chuvosa gemendo ócio, feriado, cama, aconchego macio, quarto quentinho e colo de mãe. Acordou espreguiçando os olhos.
A manhã deliciosamente nublada foi remexer os baús e me lembrou uma conversa que tive um dia desses com Binho, o filhote do meio. Amado que só ele.Meio sol, meio lua, agridoce como um tempero de sushi, de frango xadrez, manga com arroz integral.Combinação assim que encanta pra sempre.Quando lembrada, enche o céu da boca de água, mas exige garimpagem na descoberta e precisa ser saboreada de pouquinho e com o freguês certo que terá que tourear os dias de açúcar e os nem tanto.
Pois numa conversa dessas que só tem começo, Binho me falava da diferença entre homens e mulheres. Dos homens não me lembro direitinho de como ele enquadrava a espécie, só sei não era lá muito agradável pro gênero masculino. O que ficou na memória da minha pele e no chip de todas as minhas gerações foi a declaração sobre as mulheres, que eu já quero incluir no dia 8 de Março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher.
A mulher, mama?, indagava-respondendo ele, enquanto driblava o trânsito enlouquecido de Belém. A mulher é um pedaço de Deus na terra.
Olhei pra ele com o rabo do olho, sorri com a alma e guardei o dito. No coração.
A manhã deliciosamente nublada foi remexer os baús e me lembrou uma conversa que tive um dia desses com Binho, o filhote do meio. Amado que só ele.Meio sol, meio lua, agridoce como um tempero de sushi, de frango xadrez, manga com arroz integral.Combinação assim que encanta pra sempre.Quando lembrada, enche o céu da boca de água, mas exige garimpagem na descoberta e precisa ser saboreada de pouquinho e com o freguês certo que terá que tourear os dias de açúcar e os nem tanto.
Pois numa conversa dessas que só tem começo, Binho me falava da diferença entre homens e mulheres. Dos homens não me lembro direitinho de como ele enquadrava a espécie, só sei não era lá muito agradável pro gênero masculino. O que ficou na memória da minha pele e no chip de todas as minhas gerações foi a declaração sobre as mulheres, que eu já quero incluir no dia 8 de Março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher.
A mulher, mama?, indagava-respondendo ele, enquanto driblava o trânsito enlouquecido de Belém. A mulher é um pedaço de Deus na terra.
Olhei pra ele com o rabo do olho, sorri com a alma e guardei o dito. No coração.
Amiga do peito é aquela que o certificado de garantia nunca vence. Acho que foi ou mais ou menos isso que eu disse pra mana Zildinha há décadas, tempo de outras histórias, sempre com muita vida, muito giro, muito movimento.Sentimento sentido noutra época, lá atrás, e que caminha íntegro até hoje.
Bom sentir isso, melhor constatar a qualidade desse sentir.
Ficamos juntas sempre? Não. Todos os sufocos foram passados juntos? Também não.
Os risos foram compartilhados sempre? Não. Mas ele, o carinho, sempre cuidou dos desencontros pra que nada se perdesse na hora de reencontros. E a cumplicidade é sempre atualizada pelos encantamentos dos vários saberes, quereres.
A roda do tempo girando, amores indo e vindo, uns mais indo que vindo, tempos de ursa, tempos de praça e forró, tempos de estio. Ali, no lastro, o carinho, seringueira gigante a abrigar passarinho de todo tipo, criando ninhos, fazendo laços.
No dia-a-dia, o carinho-bússola sempre ali, com aconchego, riso alto, comidinha gostosa,choros e birinaite, que ninguém é de ferro. Na aparência, uma festa só. Pra comemorar a vitória da vizinha-povo,pros 30 dias de reviravolta sem sobressalto, de alguém que passou em qualquer coisa, pra abertura ao público do armário-Cecília--finalmente-pronto, pela camona comprada, pro quarto branco-Isolda,a viagem indiana da curumin, a lua cheia no sítio de Pepê, as carnes na mana Tyson,a despedida de Sandra e Jaquinho, a comemoração de Irezita, pro subir e descer das águas na beira do rio, pro dedinho-lambança de Tintim e risada de Marcita. Quem olhar de fora vai ver festa, riso, sarro, brincadeiras. E tem festa, mas é só pretexto pra juntar gente. Gente que ri, que brinca, que chora, leve, ousada,quieta, de todas as tribos e até sem-tribo. Única exigência: o selo do afeto, que se desdobra em solidariedade, sempre perspassado de ternura. Com jeito de descuido, mas ninguém se engane, porque até esse relaxamento tem o carimbinho do gostar e tá sempre acompanhado de um delicado olhar que passeia incluindo, sorrindo.
E é nessa roda de simplicidade e carinho que vai se dando a mais doce e firme maneira de inclusão nesses mais de 17 anos que tenho nesta vida. A inclusão-Zildinha, com jeito e cheiro de amor.
É sobre e pra ela este escrito em 6 de fevereiro, em que Belém amanheceu nublada e se assanhando até pra um friozinho. Eita cidade querida, eita mana querida. Uma,a cara da outra. Quanto a gente conhece, mais gosta.
Bom sentir isso, melhor constatar a qualidade desse sentir.
Ficamos juntas sempre? Não. Todos os sufocos foram passados juntos? Também não.
Os risos foram compartilhados sempre? Não. Mas ele, o carinho, sempre cuidou dos desencontros pra que nada se perdesse na hora de reencontros. E a cumplicidade é sempre atualizada pelos encantamentos dos vários saberes, quereres.
A roda do tempo girando, amores indo e vindo, uns mais indo que vindo, tempos de ursa, tempos de praça e forró, tempos de estio. Ali, no lastro, o carinho, seringueira gigante a abrigar passarinho de todo tipo, criando ninhos, fazendo laços.
No dia-a-dia, o carinho-bússola sempre ali, com aconchego, riso alto, comidinha gostosa,choros e birinaite, que ninguém é de ferro. Na aparência, uma festa só. Pra comemorar a vitória da vizinha-povo,pros 30 dias de reviravolta sem sobressalto, de alguém que passou em qualquer coisa, pra abertura ao público do armário-Cecília--finalmente-pronto, pela camona comprada, pro quarto branco-Isolda,a viagem indiana da curumin, a lua cheia no sítio de Pepê, as carnes na mana Tyson,a despedida de Sandra e Jaquinho, a comemoração de Irezita, pro subir e descer das águas na beira do rio, pro dedinho-lambança de Tintim e risada de Marcita. Quem olhar de fora vai ver festa, riso, sarro, brincadeiras. E tem festa, mas é só pretexto pra juntar gente. Gente que ri, que brinca, que chora, leve, ousada,quieta, de todas as tribos e até sem-tribo. Única exigência: o selo do afeto, que se desdobra em solidariedade, sempre perspassado de ternura. Com jeito de descuido, mas ninguém se engane, porque até esse relaxamento tem o carimbinho do gostar e tá sempre acompanhado de um delicado olhar que passeia incluindo, sorrindo.
E é nessa roda de simplicidade e carinho que vai se dando a mais doce e firme maneira de inclusão nesses mais de 17 anos que tenho nesta vida. A inclusão-Zildinha, com jeito e cheiro de amor.
É sobre e pra ela este escrito em 6 de fevereiro, em que Belém amanheceu nublada e se assanhando até pra um friozinho. Eita cidade querida, eita mana querida. Uma,a cara da outra. Quanto a gente conhece, mais gosta.
7 de janeiro, primeiro domingo de 2007, um ano que chega faceiro, se requebrando, cheio das lambanças, das esperanças. Hum hum, um ano bom. Tomo suco verde, converso com Pai do Céu, volteio pela net e resolvo ir bater o ponto na Praça da República.Domingo, dia de feirinha, de cantorias e de encontros. Mas praça sem Gigi não dá, aí eu chamo minha irmã-cúmplice-camarada, pego Magé pelo braço, amigão do samba e do cotidiano e lá vamos nós. De Pedreira Nazaré, busão sufocante todos os dias, menos aos domingos.
Domingo, o Pedreira Nazaré vai quase vazio e voa na Pedro Miranda. Quando alguém faz sinal ou puxa a cordinha, ele pára aos solavancos.Num desses, entra o primeiro amigo de Magé e convida pra reunião do samba e da gelada no acadêmicos da Pedreira. Como todo bom malandro ele abre o sorrisão e diz que vai. Depois outro entra e convida pro Bole-Bole e ele diz de novo que vai. Um terceiro convida pro Quem São Eles. O busão já entra na Alcindo Cacela, rumo à Praça. Magé tá parece político, distribuindo promessas. Descemos na Praça,ele todo solícito, conversador. Me descuido um instantinho e ele some parecidinho salário de bancário ou servidor público. Vai ao encontro das melodias, de muitos sambas. Só chegará em casa à noite, com as cantorias escorrendo pelos dedos e as lembranças se grudando nele.
A praça fervilha de gente que vende, que compra, que mais olha do que compra, que berra o Evangelho, que lota a banca do Alvino. Todos andando sem atropelos, porque domingo é dia de mãe, de carrinhos de bebê, de respirar a praça, os amigos. De parar em cada banca, pegar as coisas, dizer que é bonito o trabalho e não levar nada. Passeiam os pés, passeia o corpo, passeiam os olhos.
Nesse vaivém, lá pelas tantas topo com um povo das antigas, uma mulherada boa de briga. Caminhando lentamente, com um jeito bom de caminhar, o de quem espera o que é bom. Noutra quebrada encontro recém-secretários de Estado sorridentes, muito à vontade, com o selo da esperança-desafio na testa, na pele, no olhar. Conversas vão se cruzando, abraços de boa sorte vão sendo dados. É uma hora sem avaliação; no máximo, alguns diagnósticos, primeiras impressões e muitos desejos de que tudo corra bem. Só maré boa.
Chega a hora da bóia. De parar em algum canto,na Estação de preferência, comer uma coisinha, olhar o rio, bonito, cheião, falar, ouvir, serenar.
Eita domingo bom, sereno, cheio de mamolejo, preguiçooooso, gostoooso. Tá indo embora, mas com cara de retorno, embora não prometa nada. Talvez por ser o primeiro de um ano que o coração da gente, um danado de otimista,teimoso, exige que seja pra lá de melhor.
Domingo, o Pedreira Nazaré vai quase vazio e voa na Pedro Miranda. Quando alguém faz sinal ou puxa a cordinha, ele pára aos solavancos.Num desses, entra o primeiro amigo de Magé e convida pra reunião do samba e da gelada no acadêmicos da Pedreira. Como todo bom malandro ele abre o sorrisão e diz que vai. Depois outro entra e convida pro Bole-Bole e ele diz de novo que vai. Um terceiro convida pro Quem São Eles. O busão já entra na Alcindo Cacela, rumo à Praça. Magé tá parece político, distribuindo promessas. Descemos na Praça,ele todo solícito, conversador. Me descuido um instantinho e ele some parecidinho salário de bancário ou servidor público. Vai ao encontro das melodias, de muitos sambas. Só chegará em casa à noite, com as cantorias escorrendo pelos dedos e as lembranças se grudando nele.
A praça fervilha de gente que vende, que compra, que mais olha do que compra, que berra o Evangelho, que lota a banca do Alvino. Todos andando sem atropelos, porque domingo é dia de mãe, de carrinhos de bebê, de respirar a praça, os amigos. De parar em cada banca, pegar as coisas, dizer que é bonito o trabalho e não levar nada. Passeiam os pés, passeia o corpo, passeiam os olhos.
Nesse vaivém, lá pelas tantas topo com um povo das antigas, uma mulherada boa de briga. Caminhando lentamente, com um jeito bom de caminhar, o de quem espera o que é bom. Noutra quebrada encontro recém-secretários de Estado sorridentes, muito à vontade, com o selo da esperança-desafio na testa, na pele, no olhar. Conversas vão se cruzando, abraços de boa sorte vão sendo dados. É uma hora sem avaliação; no máximo, alguns diagnósticos, primeiras impressões e muitos desejos de que tudo corra bem. Só maré boa.
Chega a hora da bóia. De parar em algum canto,na Estação de preferência, comer uma coisinha, olhar o rio, bonito, cheião, falar, ouvir, serenar.
Eita domingo bom, sereno, cheio de mamolejo, preguiçooooso, gostoooso. Tá indo embora, mas com cara de retorno, embora não prometa nada. Talvez por ser o primeiro de um ano que o coração da gente, um danado de otimista,teimoso, exige que seja pra lá de melhor.
Papai é um homem da alegria, do bom humor. Tem 83, quase 84 anos, mas é todo sajica, durinho, conversador. Adora andar de ônibus de Bragança pra Belém e nesta Belém de meu Deus, então.. Como roda até a hora do almoço, quando faz a parada básica e antes da chuva lá vai ele, descobrindo os roteiros dos ônibus. Vai ver o rio todo dia, ele que pescou tanto, peixes, idéias, gentes, sentimentos. Volta na hora da janta e vai decobrindo panela. Com uma fominha de casa, de família, mas a alegria grudada nos olhos que já viram milhões de cenas. E sempre contando histórias alegres.
Hoje ele acordou mais alegre. Sonhou com um milharal cheio de milho e o sol batendo no milharal. Me disse que é sinal de alegria, prosperidade, tempo bom.
Tomara, veinho, tomara. Como diz uma amiga-irmã, esse milho vem bem a calhar.
Te amo, paizinho!
Hoje ele acordou mais alegre. Sonhou com um milharal cheio de milho e o sol batendo no milharal. Me disse que é sinal de alegria, prosperidade, tempo bom.
Tomara, veinho, tomara. Como diz uma amiga-irmã, esse milho vem bem a calhar.
Te amo, paizinho!
Enquanto a gente dorme,
eles caminham.
Se perdem,
se acham
e quando nossas naves estão pra se abrir
eles aparecem.
Inteiros, ou aos pedaços,
cara de gente.
E antes que o dia entre, eles se instalam
a encher nossas cabeças
de caraminholas.
São trovadores anônimos de outras épocas
que cantam esperança nas vidas
ou temperam com sal as nossas feridas,
os nossos ardumes.
eles caminham.
Se perdem,
se acham
e quando nossas naves estão pra se abrir
eles aparecem.
Inteiros, ou aos pedaços,
cara de gente.
E antes que o dia entre, eles se instalam
a encher nossas cabeças
de caraminholas.
São trovadores anônimos de outras épocas
que cantam esperança nas vidas
ou temperam com sal as nossas feridas,
os nossos ardumes.
2006 está chegando ao fim. Um ano que, para mim, trouxe a sombra, o desvão, o limbo, o não-estar. E o aprendizado. Na verdade, um reaprendizado que se traduz em dar valor ao que tem valor mesmo. Ano em que o carinho d@s amig@s esteve estendido pra que eu não me machucasse, pra que tateasse sem ir ao chão.
Alguns amigos estiveram bem perto; outros, nem tanto, mas todos se alegraram muito quando emergi e consegui rir, sorrir, gargalhar, viver. Quando fixei os olhos em um ponto olhando pra esse ponto; quando estiquei os dedos e voltei a tocar e pegar com as próprias mãos; quando andei com os pés, quando dobrei os joelhos sem sentir dor; quando o corpo, já magrinho, voltou a se encher, pouco a pouco e o paladar estalou de alegria diante dos cheiros e sabores. Quando rezar voltou a significar encontro com Deus. Quando, enfim, voltei a perceber sentido na vida.
2006, que agora se vai, foi um ano-mestre. Deixa em mim a memória da pele do conhecimento, de amor, de dor. E da alegria dos reencontros.
Só me resta agradecer. A cada um, a cada uma. Aos que cantaram, aos que choraram, aos que oraram, aos que estiveram mais perto ou mais longe, aos que estão e aos que são.
Com muito, muito amor e torcendo para que estejamos juntos em 2007, 2008, 2009....... Com o entranhamento do amor, do respeito, da solidariedade.
Beijos,
Veruskaya
Alguns amigos estiveram bem perto; outros, nem tanto, mas todos se alegraram muito quando emergi e consegui rir, sorrir, gargalhar, viver. Quando fixei os olhos em um ponto olhando pra esse ponto; quando estiquei os dedos e voltei a tocar e pegar com as próprias mãos; quando andei com os pés, quando dobrei os joelhos sem sentir dor; quando o corpo, já magrinho, voltou a se encher, pouco a pouco e o paladar estalou de alegria diante dos cheiros e sabores. Quando rezar voltou a significar encontro com Deus. Quando, enfim, voltei a perceber sentido na vida.
2006, que agora se vai, foi um ano-mestre. Deixa em mim a memória da pele do conhecimento, de amor, de dor. E da alegria dos reencontros.
Só me resta agradecer. A cada um, a cada uma. Aos que cantaram, aos que choraram, aos que oraram, aos que estiveram mais perto ou mais longe, aos que estão e aos que são.
Com muito, muito amor e torcendo para que estejamos juntos em 2007, 2008, 2009....... Com o entranhamento do amor, do respeito, da solidariedade.
Beijos,
Veruskaya
O trecho era Marabá-Carajás. Na programação, 20 minutos de vôo num bimotor que levava 10 pessoas, incluindo os 2 pilotos. Fiquei lendo uma revista, mas como ela não prendia a atenção,resolvi olhar a paisagem. Minutos depois, vi os mesmos bois parainhos lá embaixo. Devia ser imaginação. Quando passamos pela sexta vez e eu via mesma cena, tive a certeza: estávamos dando longas voltas entre Marabá e Carajás. Não há porta separando a gente da tripulação e eu comecei a perguntar: moço, o que tá havendo? Sem inquietação. Mas quando ouvi eles dizendo que estavam quase sem combustível e pediam pelo rádio a informação de enquanto tempo o tempo abriria, comecei a balançar.
O medo se grudou em mim no minúsculo avião e eu só respirei fundo, olhei pra trás, mas ninguém parecia perceber nada. Bati no vidro tentando chamar a atenção de uma colega, mas acho que vários medos já estavam se apossando dos passageiros.
Rezei e entreguei tudo na mão de Deus, que as coisas só acontecem com a gente se Ele quiser. Pensei nos meus 3 filhotes, todos grandões, mas sempre filhotes. Na minha irmã queria. No meu pai, nos amigos. Nas tantas lutas travadas.
Meu coração se aliviou. O medo respirava no meu cangote, mas eu nem tava mais no avião. Minha alma tava longe.
Olhei as nuvens densas que nos impediam de ver a serra dos Carajás e quando pisquei, vi o sol invadindo as nuvens e mostrando a serra. Foram uns 2 minutos, mas o suficiente pro avião embicar caçando a pista.
Em terra firme, 1 hora e 40 minutos depois de sairmos de Marabá, dei graças a Deus. Um gringo que iria pra Oriximiná, desistiu de continuar no avião, contratou um carro. Queria a certeza do chão memsmo que mais demorada.
Nós, com todos os riscos à vista, continuaríamos nas asas de passarinho, como diz uma colega do trabalho.
O medo se grudou em mim no minúsculo avião e eu só respirei fundo, olhei pra trás, mas ninguém parecia perceber nada. Bati no vidro tentando chamar a atenção de uma colega, mas acho que vários medos já estavam se apossando dos passageiros.
Rezei e entreguei tudo na mão de Deus, que as coisas só acontecem com a gente se Ele quiser. Pensei nos meus 3 filhotes, todos grandões, mas sempre filhotes. Na minha irmã queria. No meu pai, nos amigos. Nas tantas lutas travadas.
Meu coração se aliviou. O medo respirava no meu cangote, mas eu nem tava mais no avião. Minha alma tava longe.
Olhei as nuvens densas que nos impediam de ver a serra dos Carajás e quando pisquei, vi o sol invadindo as nuvens e mostrando a serra. Foram uns 2 minutos, mas o suficiente pro avião embicar caçando a pista.
Em terra firme, 1 hora e 40 minutos depois de sairmos de Marabá, dei graças a Deus. Um gringo que iria pra Oriximiná, desistiu de continuar no avião, contratou um carro. Queria a certeza do chão memsmo que mais demorada.
Nós, com todos os riscos à vista, continuaríamos nas asas de passarinho, como diz uma colega do trabalho.
Essa abominável violência que o Maiorana cometeu contra o Lúcio neste primeiro mês do ano - e que toda gente de bem repudiou - me fez voltar ao tempo em que o Jornal Pessoal nasceu. E já incomodando. Desde o primeiro número. Eu tava grávida, esperando o Adriano. Paulo Fontelles, o homem que sorria, no dizer de Walter Rodrigues, foi barbaramente assassinado. Minha barrigona seguiu aquele cortejo, em junho de 1987. Pari Adriano em julho e Lúcio pariu o Jornal Pessoal em setembro.
Nesses quase 18 anos, o JP tem atravessado turbulências, provocado maremotos. Servindo à verdade. Às vezes, amargurado, pois que não é fácil ser farol quando a preferência parece ser pelo jogo das sombras. Às vezes, poucas, vitorioso.
JP está chegando, aos trancos e barrancos, na maioridade civil. Adriano, também. Hoje eu consegui apresentar o Lúcio ao meu caçula, numa esquina do Reduto.
De uma outra esquina, alguém gritava: Lúcio, conte com a minha solidariedade! Na mão, eu carregava o JP Extra de janeiro contando a ignominiosa violência sofrida pelo Lúcio pelo chefão das ORM.
Nesses quase 18 anos, o JP tem atravessado turbulências, provocado maremotos. Servindo à verdade. Às vezes, amargurado, pois que não é fácil ser farol quando a preferência parece ser pelo jogo das sombras. Às vezes, poucas, vitorioso.
JP está chegando, aos trancos e barrancos, na maioridade civil. Adriano, também. Hoje eu consegui apresentar o Lúcio ao meu caçula, numa esquina do Reduto.
De uma outra esquina, alguém gritava: Lúcio, conte com a minha solidariedade! Na mão, eu carregava o JP Extra de janeiro contando a ignominiosa violência sofrida pelo Lúcio pelo chefão das ORM.
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